Entrevista publicada na revista Rock Brigade nº 170, em Setembro de 2000



Rock Brigade: É opinião unânime que este disco marca a volta do Hypocrisy aos seus primórdios, pois aposta muito na velocidade, ao contrário dos últimos dois ou três álbuns, que eram mais voltados ao peso. A banda concorda ?

Mikael Hedlund: Acredito que sim. Este álbum com certeza é mais brutal do que os últimos que já fizemos, embora ainda tenhamos algumas faixas mais pesadonas no CD. Tentamos fazer uma mistura de músicas mais rápidas com outras mais pesadas, quisemos fazer um álbum variado, que fosse mais interessante para os fãs. Seria muito chato se todas as faixas fossem rápidas, sem variações. Mas é claro que no todo, esse disco é mais agressivo do que o Hypocrisy vinha sendo.

RB: De qualquer modo, algumas partes são tão rápidas e brutais que acabam surpreendendo, principalmente se tivermos em mente a evolução que o trabalho do Hypocrisy vinha apresentando até então. Essa agressividade renovada surgiu naturalmente ?



Mikael: Bem, não foi nada que estivéssemos pensando sobre quando escrevemos as músicas. Simplesmente aconteceu de, desta feita, as canções terem surgido mais agressivas durante o processo de composição. Pode-se dizer que foi um processo natural, embora fosse nosso desejo não permitir que o novo CD ficasse mais comercial do que o último que fizemos. Deste modo, acredito que, inconscientemente, forçamos um pouco esta volta as raízes, já que queríamos fazer algo mais porrada do que vínhamos fazendo. Porém, não ficamos pensando tanto nisso quando escrevemos as músicas.


RB: O nome do álbum é uma clara referência ao estúdio de Peter Tägtgren, o Abyss Studios, onde este álbum foi gravado, Porém, há alguma outra explicação por trás deste nome ?

Hedlund:
Na verdade, o título do CD não tem nada a ver com o estúdio [ risos ]. Foi o Peter quem apareceu com este nome, por isso, não tenho a menos idéia do que ele representa [ Nota do Redator: Pô , se o cara é o dono da banda, porque não colocam só ele pra dar as entrevistas ? Ao menos evitaria respostas como estas ].


RB: Se por um lado, este novo álbum possui faixas que remetem diretamente às raízes do Hypocrisy, por outro, possui canções um tanto quanto experimentais e esquisitas, como, por exemplo, Deathrow ( No Regrets ). Porque incluir este tipo e experimentações no CD ?

Hedlund:
Nós sempre concordamos gostamos de colocar alguns momentos mais atmosféricos nos nossos discos. Especialmente quando temos uma música mais pesadona, como essa, procuramos enriquecê-la com efeitos de som, teclados e melodias estranhas, justamente para deixá-la bem envolvente do ponto de vista musical. Não é uma coisa obrigatória, mas gostamos de ter números assim em nossos CDs.


RB: Na minha opinião "Unleash the Beast" é a faixa mais poderosa do CD e uma das melhores de sua carreira. Embora ela não seja tipicamente do Hypocrisy, é uma música fantástica. Você concorda que ela é o melhor momento do álbum ?

Hedlund:
Esta música é bem diferente das demais canções que aparecem no álbum. Ela é quase "mid-tempo" e possui uma influência punk indiscutível. Como você disse, quase não dá pra dizer que é uma música do Hypocrisy [ risos ]. Mas eu a considero uma puta música, embora eu pessoalmente, gostei mais de "Ressurrected" e "Legions Descend". Na minha opinião, estas são as duas melhores faixas do disco.


RB: Por falar nessas influências punk, elas já tinham aparecido no "Hypocrisy Destroys Wacken", na faixa "Fuck U",e agora de novo em "Unleash the Beast". Quem é o punk na banda ?

Hedlund:
Todos nós gostamos muito de punk rock, mas definitivamente é o nosso baterista Lars, quem tem as influências mais fortes. Nós três já tivemos envolvimento com a cena punk sueca, por isso é natural que de vez em quando isso fique claro em nossa música.


RB: O fato de possuir este experimentalismo do qual vínhamos falando, e também estas influências punk, faz do Hypocrisy uma banda bem diferente de outras que também fazem death metal. Por causa disso, este rótulo, death metal, ainda descreve bem a música do grupo ?

Hedlund:
Bem, eu gostaria que nossa música jamais fosse rotulada. Por sinal, eu discordo destes rótulos que as pessoas inventam, seja pra qual estilo de música for. Nós tentamos mesclar de tudo em nosso som. Eu não quero chamá-lo nem de death metal nem de Black metal nem de heavy metal. Porque somos uma mistura de tudo isso, não uma coisa só.


RB: No novo álbum, você e o Lars envolveram-se muito mais com o processo de composição do que nos trabalhos anteriores do Hypocrisy, em que tudo era autoria do Peter. Ele forçou vocês dois a escreverem mais ou rolou naturalmente de vocês aparecem com idéias mais aproveitáveis ?

Hedlund:
Acho que aconteceu um pouco das duas coisas. Desta vez, eu e o Lars tivemos mais tempo para sentarmos no estúdio do Peter e ficar por lá compondo as músicas novas. Antigamente, cada um de nós ficava em casa criando Riffs. Só o Peter podia fazer Riffs no estúdio, já que é dono de um. Depois, a gente se encontrava pra fazer todo mundo junto os arranjos. Aí é que todo mundo ia para o estúdio gravar o álbum. Agora, como eu e o Lars tivemos mais tempo para este processo todo no estúdio, que é um ambiente propício à criação musical, foi natural virmos com mais idéias para o CD. Trabalhar música em um estúdio facilita muito o surgimento de boas idéias.


RB: Quais as músicas do álbum que são de sua autoria ?

Hedlund:
Bem, todos nós estivemos envolvidos de alguma forma no arranjo final de todas as faixas. Porém, três delas foram desenvolvidas a partir de idéias minhas, Fire in the Sky, Total Eclipse e Sodomized são músicas que eu considero minhas.


RB: Em relação aos vocais,praticamente cada música possui um trabalho de vozes diferente. Isso foi feito apenas como experimentação ou as faixas pediam esta grande variação ?

Hedlund:
Por um lado fizemos estas experimentações intencionalmente. Realmente queríamos ter vozes mais variadas no álbum. Por outro, vimos que teríamos que fazer vocais diferentes em algumas faixas, para torná-las mais interessantes. Poderia se tornar enfadonho ouvir vocais iguais em todas as faixas do CD.


RB: Como já falamos, este álbum não é uma evolução natural do trabalho do Hypocrisy, pois segue por um caminho mais agressivo do que aquele mostrado nos dois últimos discos do grupo. Ainda assim, quando ele começa a rolar no toca discos, você percebe imediatamente aquele toque do Hypocrisy, logo se vê que se trata de um CD da banda. Pra você, qual a característica mais marcante do Hypocrisy, aquela que permite ao ouvinte identificar de cara uma música de vocês, mesmo sem nunca a ter ouvido ?

Hedlund:
Eu concordo com você neste ponto. Mesmo sendo um disco um pouco diferente, no fim das contas ele soa totalmente como Hypocrisy. Creio que a característica mais marcante do nosso som seja o fato de ele ser fácil de ouvir. Apesar de tocarmos um estilo agressivo, não é difícil o ouvinte gostar de nossa música. É esse o principal ponto do nosso estilo, ou seja, fazermos de algo muito brutal, algo muito acessível. Isso é o Hypocrisy.


RB: Sei que é difícil fazer uma previsão a esta altura, mas você acha que o trabalho do Hypocrisy, daqui em diante, irá seguir nessa linha mais brutal ou irá retornar aquele caminho mais cadenciado de "The Final Chapter" e "Hypocrisy" ?

Hedlund:
Eu diria com certeza que iremos seguir a linha mais brutal que mostramos no novo CD. Estamos muito felizes com os resultados que alcançamos nele, por isso, seria estúpido mudar. Claro, alguma coisa pode acontecer no meio do caminho, mas por mim, ficaria nesta linha que estamos agora. Mais brutal não, mas no mesmo nível de agora.


RB: O Hypocrisy já está a dez anos na estrada. Quais as melhores e as piores coisas que rolaram com você e a banda nesse tempo todo ?

Hedlund:
Acho que a melhor coisa foi a primeira turnê, que fizemos ao lado do Cannibal Corpse e do Fear Factory, lá por volta de 1993. Tudo era novo pra gente, nunca sabíamos o que iria acontecer, todo dia rolava alguma surpresa. Por isso, foi tudo muito legal. Já a pior coisa... Não sei, acho que não teve uma pior coisa. Nunca passamos por problemas muito graves.


RB: Na época de "The Final Chapter", Peter quis acabar com o Hypocrisy. Embora isso não tenha acontecido, como você se sentiu na época ?

Hedlund:
Pra mim e pro Lars isso foi simplesmente inacreditável, um puta negócio absurdo. Afinal, nós dois não queríamos definitivamente sair da banda, muito menos que ela acabasse. Mas o Peter estava todo estressado nessa época. Além do Hypocrisy, ele tinha o estúdio, os trabalhos de produção e o Pain. Além disso tinha acabado de ter um filho e, por isso passou a ter uma família com a qual se preocupar. O cara estava esgotado mesmo. Para nós foi uma fase difícil.


RB: Talvez tenha sido essa então, a pior coisa que aconteceu com o Hypocrisy para você.

Hedlund: Sim, pode ser que tenha sido esta mesmo. Mas o bom foi que o Peter logo desistiu da idéia de acabar com tudo. Acho que foi mais um desabafo dele para algumas revistas do que algo que ele realmente estivesse com vontade de fazer. Mesmo assim, creio que a notícia foi pior para os fãs do que para mim ou para o Lars.


RB: O que o fez mudar de idéia tão rapidamente ?

Hedlund: Nós falamos com ele e logo conseguimos fazê-lo repensar a decisão. Por isso, esta história de acabar com a banda nem acabou sendo uma coisa muito pesada como poderia ter sido.


Entrevista realizada por Ricardo Franzin





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