Entrevista publicada na revista Rock Brigade nº212, em Março de 2004

Rock Brigade: O disco anterior do Hypocrisy, "Catch 22" , veio repleto de experimentos. A banda flertou com alguns estilos pouco usuais no âmbito do Death Metal, como o punk rock, por exemplo. Na minha opinião, mesmo com essas novas idéias, aquele disco é excelente, mas em "The Arrival", vocês voltaram à linha mais tradicional do Hypocrisy. Por quê ?

Peter: Foi um lance que aconteceu meio que naturalmente. Quer dizer, nós consolidamos o nosso próprio estilo musical 90, mas decidimos fazer algumas experimentações no "Into the Abyss" e principalmente no "Catch 22" . Porém, depois de termos trilhado esses novos caminhos, era natural que acabássemos voltando ao velho estilo do Hypocrisy, ainda que desenvolvendo-o e deixando-o ainda melhor.


Rock Brigade: O que acha de "Catch 22" ? É um disco com o qual você está feliz ainda hoje ?


Peter:
Sim, com certeza, eu ainda estou muito satisfeito com tudo o que fizemos nele. Era o tipo de disco que a gente precisava fazer, entende ? Toda banda que tem uma carreira de 10 anos acaba fazendo alguma coisa um pouco diferente de vez em quando. E para nós, esse disco funcionou também como um processo de aprendizado, de sabermos que podemos fazer outras coisas musicalmente.

Rock Brigade: Como foi a recepção dos fãs para este disco, positiva ou negativa ? Afinal, sem dúvida ele é o trabalho mais controverso do Hypocrisy.

Peter: Eu diria que foi um pouco de cada. De modo geral, as pessoas ficaram muito surpresas quando o escutaram, sendo que algumas ficaram felizes com essa surpresa e outras não ficaram. No entanto, é impossível você satisfazer a todos. Se uma banda tenta fazer isso, está no caminho errado. O importante é você satisfazer a si mesmo antes de qualquer coisa. Essa foi mais uma razão para ter sido tão importante fazer esse disco.


Rock Brigade: Já dá pra dizer se a reação dos fãs a "The Arrival" é mais positiva ou mais negativa do que aquela que vocês tiveram para o "Catch 22" ?

Peter: Nós nunca tivemos uma recepção inicial tão boa quanto desta vez em toda a nossa carreira! Por isso, creio que a trajetória do disco será muito bem-sucedida.


Rock Brigade: Eu ainda não pude ler as letras do disco, pois só temos em mãos a cópia promocional do CD e ela não vem com o encarte. Porém, a julgar pelo título, pela capa e pelo nome das músicas, parece bastante claro que se trata de um trabalho conceitual lidando uma vez mais com as temáticas referentes à vida extraterrestre. É isso mesmo ?

Peter: Bem eu diria que 95% do que está no álbum responde por esta temática. No entanto, cada uma das canções possui sua própria história, por isso, eu não diria que estamos diante de um álbum conceitual. Se há um conceito, é o fato de tudo ser baseado em fantasia, na ficção científica. É como se fosse um livro de contos desses estilos.


Rock Brigade: Você tentou tratar desses conceitos sobre perspectivas diferentes desta vez ?

Peter: Sim, definitivamente sim. No passado, para escrever nossas letras eu fazia uma pesquisa imensa. Eu sentia que, para escrever sobre esses assuntos, tinha que ter algum embasamento na realidade. Desta vez, porém, tudo que está ali é fantasia pura, cada uma das músicas é uma história inteiramente minha.


Rock Brigade: O Hypocrisy já vem trabalhando com esse tipo de temática há algum tempo. Por isso, você não teme que as pessoas comecem a achar que vocês estão exagerando ? Ou ainda tem como esses temas serem explorados sem que o lance soe repetitivo ?

Peter: Na verdade, eu acho que isso já se tornou uma parte do Hypocrisy, por isso não dá pra simplesmente começarmos a falar sobre outros assuntos. Eu não sei o que faremos no nosso próximo disco, mas ainda sinto que estes tópicos são interessantes de serem tratados. E sinto que as pessoas ainda se interessam em ler sobre eles também.


Rock Brigade: Você disse que este é o disco do Hypocrisy com a melhor recepção inicial entre todos os que a banda já fez. Você acha que ele de fato merece receber sem restrições todas essas reações calorosas ou há elementos nele que poderiam ser ainda melhores ?

Peter: Sim, eu acho que ele merece sim. Especialmente porque a gente quase se matou de tanto trabalhar pra fazer essa porra [ risos ] ! Por isso, quando eu o escuto, sinceramente acho que ele soa muito bem e é justo que esteja sendo bem recebido.


Rock Brigade: Principalmente porque ele vem com algumas músicas sinceramente matadoras, como a sensacional "Slave to the Parasites", sem dúvida uma das melhores já feitas pelo Hypocrisy.

Peter: Bem, para mim, é muito difícil dizer quais são as nossas melhores canções. Minhas prediletas mudam quase que diariamente. De qualquer modo, realmente não posso deixar de concordar que "Slave to the Parasites" é um dos pontos altos deste disco. Acho que não há dúvidas a respeito disso.


Rock Brigade: Ela é a faixa de trabalho do disco ?

Peter: Na verdade, não. A música que estamos trabalhando é "Eraser". Inclusive vamos gravar um videoclipe para ela em duas ou três semanas [ N. do R: entrevista feita em 27/1/2004 ].


Rock Brigade: Pouco depois de o disco ter sido lançado, houve uma troca de bateristas no Hypocrisy. Lars saiu da banda e para o seu lugar veio o ex-batera do Immortal, Horgh. O que aconteceu para que houvesse essa troca ?

Peter: Bem, ao longo dos últimos anos, o Lars já não vinha sendo um cara construtivo para a banda. Ele não demonstrava nenhum interesse. Sei lá, ele apenas queria estar ali, mais nada. Além disso, é um pouco frustrante você estar compondo e ter que se preocupar se as pessoas que estão com você na banda serão capazes de executar o que você está fazendo. E chegou um ponto em que nós vimos que não queríamos mais nos contentar em escrever somente músicas que ele fosse capaz de tocar. Por isso, começamos a nos sentir muito limitados pelo fato de o Lars ser o nosso baterista, portanto tivemos que deixá-lo partir.


Rock Brigade: Ele Saiu do Hypocrisy espontaneamente ou vocês o mandaram embora ?

Peter: Foi uma decisão consensual, eu diria. Nós fizemos uma reunião e dissemos que não fazia mais sentido ele continuar na banda.

Rock Brigade: Ele concordou de imediato ou ainda tentou argumentar ?

Peter: [ hesitante ]. Eu acho que ele entendeu o nosso ponto de vista. Creio que ele viu que o que nós queríamos fazer com o futuro da banda ele não poderia nos dar.


Rock Brigade: Como vocês chegaram ao Horgh ? Quer dizer, você provavelmente já o conhecia em virtude das produções com o Immortal, mas ele era a principal opção para o posto ?

Peter: Sim. Na verdade, ele era a única opção, pois é um cara muito, muito legal, que tem uma personalidade formidável. Além disso, Horgh é um baterista extremamente dedicado. Um puta batera!


Rock Brigade: Você acha que se o Immortal ainda existisse ele teria optado por juntar-se ao Hypocrisy ?

Peter: Bem, aí seria diferente, já que nesse caso, nós nunca o teríamos convidado para entrar na banda. Afinal, ele já tinha uma banda, por isso, não seria legal fazer esta proposta.


Rock Brigade: Na época do álbum "The Final Chapter", você disse em inúmeras que tinha decidido terminar com o Hypocrisy porque estava cansado de levar a banda nas costas sozinho, enquanto os outros integrantes não faziam quase nada por ela. Como está essa situação hoje em dia ?

Peter: Ah, hoje em dia as coisas estão muito melhores. No novo álbum por exemplo, eu escrevi metade do material, enquanto o Mikael escreveu a outra metade. Ou seja, estamos realmente dividindo o trabalho, além de termos começado realmente a contribuir com as idéias um do outro. Fora isso, ele também está fazendo algumas entrevistas para divulgar o disco, ou seja, não sou mais o único a falar pela banda com a imprensa. É muito bom não ter mais tanta pressão sobre os meus ombros e poder contar com a ajuda dos outros caras. Agora que o Horgh está no grupo, tenho certeza de que vai começar a dar uma força também. Ou seja, está indo bem melhor do que antigamente.


Rock Brigade: Você acha que o Horgh pode trazer novas influências para a banda ? Afinal, toda a história musical dele até o Hypocrisy aconteceu no âmbito do black metal, não tanto do death.

Peter: Bem, certamente nós iremos fazer um monte de experimentos e aproveitaremos o talento que ele tem para tentarmos coisas novas. Porém, ainda seremos o Hypocrisy. Nossa música não irá sofrer nenhuma mudança radical por causa da entrada dele, mas ela será melhor em alguns aspectos.


Rock Brigade: Ele vai usar 'corpsepaint' no Hypocrisy ?

Peter: [ rindo ] Não, claro que não !


Rock Brigade: Há alguns rumores rolando por aí segundo os quais você estaria desistindo de sua carreira como produtor para concentrar-se exclusivamente no Hypocrisy. Isso soa como uma surpresa para mim, pois você tem produzido um monte de discos excelentes nos últimos anos e seria um desperdício deixar isso para trás. Por isso, é mesmo verdade que você está saindo fora desse tipo de trabalho ?

Peter: Eu realmente disso isso há uns dois anos e, desde então, dei uma sossegada e não produzi mais tantos discos como antigamente. Não que eu queira desistir totalmente de ser produtor, só que eu preciso de um pouco mais de tempo livre para me concentrar nas minhas bandas, ter mais liberdade para sair em turnê, essas coisas. Por isso, vou continuar gravando o [ meu projeto paralelo ] Pain e o Hypocrisy, além de bandas formadas por amigos meus como o Marduk, por exemplo. Mas nada além disso.


Rock Brigade: Já que você terá, então, mais tempo para as turnês, será que desta vez o Hypocrisy finalmente vem para o Brasil ?

Peter: Pois é, já passou da hora de irmos ao Brasil. Não sei quando serão exatamente, mas nós temos um show marcado no Chile, um na Colômbia e três no México. Por isso, tomara que consigamos encaixar o Brasil no roteiro também. Afinal, nós sabemos que temos muitos fãs no país e mal podemos esperar para tocar para eles.


Entrevista realizada por Ricardo Franzin

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