Entrevista publicada na revista Roadie Crew nº62, em Março de 2004

Roadie Crew: A maior novidade do Hypocrisy neste início de ano é a entrada do baterista Horgh, ex-Immortal, substituindo Lars Szoke. Qual a razão de Lars ter deixado a banda após tantos anos, e como Horgh se juntou a vocês ?

Peter Tagtgren: O Lars não estava mais tão interessado em fazer o que estava fazendo. Decidimos então que havia chegado a hora de fazer algumas mudanças na banda e, como eu conheço o Horgh há muitos anos, gravando bandas em que ele toca, além de ser o baterista do Pain nos últimos quatro anos, acabou sendo uma escolha natural.


Mikael Hedlund: Nós fizemos muitas turnês nos últimos dois anos, e o Lars estava cansado de fazer isso. Nós tivemos que decidir, pois se você está em uma banda, têm que dar 110% de si, do contrário as coisas não funcionam. Por isso ele saiu da banda. O Horgh é um grande amigo nosso há anos, e, além disso, já havíamos feito turnê com o Immortal antes e já sabíamos como o cara é. Além de tudo, todos sabemos que ele é um baterista brilhante. Telefonamos para ele perguntando se estava a fim de entrar na banda e ele topou na hora dar tudo de si.


Roadie Crew: A agenda de shows do Hypocrisy continua muito cheia este ano, e vocês estarão fazendo turnês com o Cannibal Corpse e o Exhumed nos Estados Unidos e, logo após, voltarão à Europa para o No Mercy Festival, que é um festival itinerante. Como serão estes shows ?

Peter: Vai ser muito legal e poderemos estar indo para a América do Sul pela primeira vez após a turnê Sul Americana. Iremos tocar na Colômbia e no Chile, além de fazermos alguns shows no México, e depois iremos para a Europa para o "No Mercy Festival".

Mikael: Vai ser legal esta turnê americana, pois passaremos um mês fazendo shows com o Cannibal Corpse e, e depois finalmente iremos à América do Sul.


Roadie Crew: Vocês deveriam fazer uma parada no Brasil!

Peter: Eu sei! Não estamos indo por causa da pessoa que agendou estes shows, e não faço idéia do por que não estamos indo ao Brasil!

Mikael: Ficamos chateados de não podermos ir ao Brasil, pois é uma coisa que queremos muito.


Roadie Crew: Vocês deram aos fãs a opção de escolher as músicas que vocês irão tocar nesta turnê, através de uma votação em seu website oficial. Como surgiu esta idéia ?

Peter: Nós queremos que os fãs façam parte destes shows. São eles que pagam os ingressos para as apresentações e eles devem ter a opção de escutar as músicas que quiserem. Esta é uma boa oportunidade, e não são muitas bandas que estão fazendo isso hoje em dia.

Mikael: Sempre queremos deixar os fãs satisfeitos. Se eu gosto de uma banda, é legal poder participar de seu set-list, e foi por isso que tivemos essa idéia, que achei muito boa.


Roadie Crew: O novo álbum, "The Arrival", pode ser considerado um dos mais diferentes da carreira do Hypocrisy, principalmente pela variedade de influências, pois vocês usaram elementos de Doom, Gothic, Trash, Black e Death Metal, misturando tudo isso com muita melodia. Vocês consideram "The Arrival" uma evolução do "Catch 22" , que é diferente de tudo aquilo que o Hypocrisy havia feito?

Peter: Não, acho que ele é uma evolução do álbum "Hypocrisy" de 1999. A banda meio que parou de ser o Hypocrisy ali e retornamos agora com o "The Arrival".

Mikael: O "Catch22" é um álbum com músicas cheias de riffs, e o som é bem seco, quase punk. Isto não significa que eu não goste dele, e eu o amo. O novo álbum, "The Arrival", mostra o Hypocrisy de volta àquele som de "abdução" do Hypocrisy ( risos ). "The Arrival" é realmente o estilo de músicas que o Hypocrisy gosta de fazer.


Roadie Crew: Músicas como "Stillborn" mostram uma nova face no som do Hypocrisy, notadamente pela introdução da guitarra e o som de baixo, além do começo quase eletrônico. Você usou instrumentos sintetizados nela e no restante do álbum ?

Peter: Não, o que nós fizemos foi usar alguns teclados de fundo nas músicas, mas não muitos. Não há guitarras ou baixos eletrônicos nesse álbum.

Mikael: Nós sempre, não sempre, mas algumas vezes usamos os teclados de fundo para deixar as músicas mais atmosféricas. O som de guitarra está muito bom e deixa o álbum mais pesado.


Roadie Crew: Faixas como "Eraser", "Slave to the Parasites", "The Abyss" e "The Departure" estão entre as minhas favoritas do álbum, por serem cadenciadas e agressivas ao mesmo tempo, e ainda cheias de melodias bem legais. Quais faixas são as que vocês mais gostaram e por quê?

Peter: Não sei, mas gosto muito de "War Within", porque ela é um tipo de música épica, que o leva a algum lugar no espaço. É difícil dizer qual delas eu gosto mais, pois gosto muito de todas.

Mikael: Claro que estou satisfeito com todas as músicas do álbum, mas, se eu tiver que escolher alguma delas, acho que ficaria com a "Eraser", que é a do videoclipe. Acho que ela representa muito o que é o Hypocrisy.


Roadie Crew: O "The Arrival" parece ser um álbum conceitual sobre aliens, estou certo ? Qual a história por trás dele ?

Peter: Este tema é algo que me fascina e me sinto bem escrevendo letras sobre ele. Não há muitas bandas fazendo este estilo, que já se tornou um pouco parte do que o Hypocrisy é.

Mikael: Não há um tema central, mas ele é inteiro sobre temas de alienígenas, ficção científica e abdução, sem uma história por trás. Cada faixa tem sua própria história, e falam sobre uma visão pessoal do que está acontecendo lá em cima.

Roadie Crew: Desde o início da carreira do Hypocrisy vocês usaram temas sobre alienígenas e ficção científica em suas músicas, mas eu diria que, em "The Arrival", vocês conseguiram a melhor mistura entre o tema e o instrumental de toda sua carreira. Vocês concordam com isso ?

Peter: Acho que sim, mesmo sendo difícil de afirmar isto. Mas acho que, após todo o trabalho de gravação, e tendo ficado um tempo sem escutá-lo, quando o escuto hoje em dia, vejo que a mistura ficou muito boa.

Mikael: Eu concordo com você. Acho que "The Arrival" ficou muito completo e esta mistura das letras com o instrumental ficou perfeita, além da capa, que também ficou muito boa.


Roadie Crew: A mixagem, masterização e, obviamente, a produção, foram pontos cruciais que fizeram vocês conseguirem esta sonoridade em "The Arrival". O que vocês podem dizer sobre este trabalho ?

Peter: Nós mixamos e masterizamos o álbum antes de irmos tocar nos Estados Unidos, e quando voltei para casa, peguei o CD promocional e disse que não haveria condições dele ser lançado daquele jeito. E fiz então todo o trabalho de mixagem e masterização até que ele agora ficou realmente da maneira que deveria ficar desde o início. Ele ficou mais agressivo.

Mikael: Nós fizemos da maneira que sempre fazemos, que é desenvolver os arranjos de cada faixa quando chegamos ao estúdio para gravar o disco. Primeiro gravamos uma Demo e ficamos trabalhando em cima de cada faixa até que ficamos 100% satisfeitos com todas. Só assim que damos início às gravações e este trabalho demorou dois meses.


Roadie Crew: Muitas vezes um trabalho sempre com o mesmo produtor pode soar sempre igual, o que não é o caso do Hypocrisy. Peter, como é este seu trabalho de guitarrista, vocalista e também produtor do Hypocrisy ?


Peter: Eu tento ver isto de uma maneira diferente, e sempre faço o trabalho no Hypocrisy de uma maneira que seja aquilo que eu queira escutar no final. Gosto de manter o trabalho interessante como produtor, renovando-nos um pouco a cada disco novo.

Mikael: Este trabalho é muito bom, principalmente quando usamos o estúdio do Peter, pois não há stress, e todos trabalhamos muito relaxados. E é claro, o Peter sabe exatamente como o Hypocrisy deve soar, o que é bom para nós.


Roadie Crew: Eu me lembro quando vocês voltaram à ativa em 1999, e gravaram o álbum "Hypocrisy", que foi muito especial para os fãs da banda. Como foi esta época para vocês ?

Peter: Sinto que agora as coisas estão ficando melhores para o Hypocrisy pois as respostas que temos obtido sobre o novo trabalho são impressionantes. Ainda não sei direito o que esperar mais pra frente.

Mikael: Acho que nesta época nós encontramos exatamente a maneira de como deveríamos soar. Na verdade acho que vimos isto até antes, logo após o "Abducted". Após esta época acho que as coisas foram ficando cada vez melhores para nós.


Roadie Crew: Qual a opinião de vocês sobre a faixa "Fractured Millennium", daquele mesmo álbum ? Acho que ela pode ser considerada um marco da carreira do Hypocrisy, por ser um épico e pelo momento que a banda passava na época!

Peter: Sim, definitivamente ela é uma espécie de hino para o Hypocrisy, e funciona muito bem ao vivo. Ela é definitivamente um hino.

Mikael: Eu concordo, ainda mais com as reações do público quando tocamos "Fractured Millennium" ao vivo. Ela é uma música típica do Hypocrisy.


Roadie Crew: Sabemos que Peter tem uma outra banda, Pain, e também trabalha como produtor de uma série de outras bandas da cena em seu estúdio. A separação temporária da banda, em 1997, teve alguma coisa a ver com seu trabalho como produtor ?

Peter: Estávamos com muito trabalho e havia muitas coisas que não estavam indo bem, que começaram em 1996. Mas isto á faz muito tempo e creio que as mudanças que ocorreram foram para melhor. Havia muitos problemas com a banda e as gravadoras, e não teve nada a ver com meu trabalho como produtor.

Mikael: Não foi nada tão sério. Acho que o Peter também estava cansado de fazer tudo sozinho na banda, como entrevistas e contatos. Nós fizemos uma reunião para chegar a um acordo onde todos deveriam fazer mais pela banda, como uma equipe. Acho que após esta reunião tivemos um novo começo.


Roadie Crew: Peter, e como anda este seu trabalho paralelo, como produtor hoje em dia ?

Peter: Eu não tenho produzido muito nos dois últimos anos, pois eu quis dar um tempo nisso, mas neste verão, irei fazer os novos álbuns do Marduk e do Dissection, e serão os únicos este ano, pois estou muito ocupado com o Hypocrisy.


Roadie Crew: O "Into the Abyss" que veio na seqüência de "Hypocrisy", também é muito bom, com faixas como "Fire in the Sky" e "Unfold the Sorrow", que são mais cadenciadas e cheias de groove. Você acha que, de alguma forma ele foi o início de uma evolução que daria em "Catch 22" ?

Peter: Acho que não, pois tomamos um rumo diferente em "Catch 22" . Este rumo foi apenas algo que gostaríamos de fazer.

Mikael: Não sei. O "Catch 22" é mais brutal. Não sei por que ele saiu assim, e acho que estávamos todos naquele clima. Eu diria que após "Hypocrisy", deveríamos fazer o "The Arrival", pois seria mais uma seqüência na mesma direção.


Roadie Crew: O "Catch 22" é o álbum mais diferente da carreira do Hypocrisy por ser mais direto que qualquer outro trabalho anterior. Qual foi a reação da mídia e dos fãs quando ele foi lançado ?

Peter: A reação de todos foi bem dividida, com algumas pessoas amando e outras odiando. Mas fizemos aquele álbum para agradar a nós mesmos e mais ninguém.

Mikael: As reações não foram tão boas como vinham sendo antes dele ser lançado. Algumas pessoas começaram a não entender o que estava acontecendo na banda, devido aos vocais limpos e os riffs que fizemos. Mesmo com as reações não tão boas, de uma forma geral, mas muitas pessoas gostaram muito do "Catch 22" .


Roadie Crew: Vocês estão na banda desde que ela começou. Quais os melhores e piores momentos que vocês atravessaram no Hypocrisy ?

Peter: Não sei, pois as coisas ficam cada vez melhores. Recentemente, na turnê com o Dimmu Borgir, tivemos um dos pontos altos na carreira da banda, pois foram shows muito bem sucedidos. Não vejo a hora de cair na estrada novamente, pois sei que as coisas vão ficar cada vez melhores. Acho que o nosso ponto baixo foi quando decidimos sair de cena por um tempo. Muitos problemas pessoais estavam atrapalhando o Hypocrisy.

Mikael: Acho que quando assinamos nosso primeiro contrato com a Nuclear Blast foi um grande momento de minha vida, pois tivemos a chance de gravar o álbum, além de fazer uma turnê com o Cannibal Corpse em 1993.


Entrevista feita por André Dellamanha, para a revista Roadie Crew de Março de 2004.


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